UMA LIÇÃO DE XADREZ EM PROSA

Com quem falaste?
– Porque jogas assim?
Não entende nada de xadrez?!
Com esses lances só te arriscas a perder partidas que de outra maneira seriam fáceis de ganhar.

– Não te zangue. Jogo assim porque gosto de jogar assim…

– Escute?
Pensas que alguém te vai dar um prémio por ter sacrificado todas as peças numa só partida de xadrez?
Esperas uma estátua no meio da cidade ou que deem o teu nome a uma rua?
Entende isto!
O xadrez de competição é feito de resultados.
Ou se ganha, ou se empata ou se perde.
E da maneira como tu jogas perder é o resultado natural!

– Então, como devo jogar?

– Tu sabes a resposta!
Não o tens feito porque não queres.
Pura teimosia!

– Não, diga ai. Estou a ouvir-te.
Como é que achas que devo jogar?

– Não inventes tanto!
Depois, de tanto lutares para teres vantagem posicional, remata a partida!
Há uma altura em que precisas entender que a lógica pura e fria da posição te obriga a tomar opções racionais.

– Explique melhor. Fiquei na mesma.

– Escuta.
Uma coisa é gostar de jogar bonito e daí complicares as coisas, normalmente para o teu lado.
Só que, os melhores movimentos que podes fazer, são muitas vezes manobras sutis melhorando pouco a pouco a tua posição.

– Queres dizer, Jogar cheio de medo de perder e não arriscar nada!. Não é isso!
O que os teus adversários querem é que te atires como um louco e que te espetes.
Eles procuram ser sólidos e não te dar razões reais para puder sacrificar seja o que for.

– Então, o que me aconselhas?

– Não seja materialista.
Deixa de jogar para o material e pensa mais nos conceitos lógicos e estudados do jogo.

– Materialista, eu?!
Estás a brincar?
Então, por exemplo, sacrificar um peão ou dois para abrir a posição para as minhas peças ou para atacar as peças adversárias que tomem esses peões, tentando assim ganhar tempos e ativar a minha posição é ser materialista?

– Claro que sim!!

– Não te entendo.
Quando tenho vantagem suficiente para isso, não tenho nenhum problema em sacrificar bispo, cavalo ou torre, se conseguir calcular que pelo menos o empate está assegurado.

– Pois, quando não tens miragens e não estás na realidade a deitar fora toda a vantagem adquirida.
Eu vi as tuas últimas partidas.
És o campeão dos xeque-mates de miragem!
Pior!
És capaz de estar a atacar e não percebes que na realidade tu é que vais acabar por levar mate por descuidar demasiado a proteção do teu rei!

– Ok, ok. Isso já se passou, é verdade.
Mas, a parte de ser um materialista, não concordo.

– És materialista sim!
A maioria dos enxadristas jogam para não cair em desvantagem material.
E Tu?
Tu, jogas para dar quase todo o material que tenhas, desde que te reste qualquer coisa para dares mate ou promover algum peão passado.

– Ah! Por isso dizes que sou materialista!

– Exatamente.
Ou és daqueles que pensam que jogar de forma dinâmica, ganhando tempos com gambitos não é ser materialista?
Mais do que ninguém estás a contar as peças que estão no tabuleiro.

– Pensas que devo mudar a minha forma de jogar, é isso?

– Não.
Deves jogar exatamente como te sentes melhor, mas, lembra-te de uma coisa;
analisa friamente as posições para que não te canses tanto e te apercebas em que altura tens de acelerar ou abrandar o teu jogo ou até mudar de plano.
Há alturas na partida em que necessitas consolidar a posição antes de desferires o golpe final.
Mesmo dando algumas chances de contra-ataque, certifica-te sempre que podes levar as coisas até ao fim sem surpresas desagradáveis.
A maioria das tuas derrotas são contra jogadores que sabem bem menos de xadrez que tu.

– Ok, entendi a mensagem.

– Quando jogas um torneio?

– Em breve. Um torneio internacional que espero que me corra melhor que o do ano passado.

– Não te preocupes. Segue o meu conselho, agarra-te mais à partida que estás a jogar e depois conta-me como foi.

– Está bem, assim farei…